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São Sebastião - SP

O amor e a barragem

19/01/2022 27

No dia 08 de janeiro exibimos o filme “Deserto Particular” no Espaço Cultural Circo Navegador, em razão do grande número de contágio por COVID-19, restringimos o público a apenas 10 pessoas. Foi ao mesmo tempo uma tristeza por não poder agregar mais pessoas em torno de um tema tão urgente e um prazer de assistir e conversar sobre cinema com pessoas queridas. Agradecemos a Pandora Filmes e ao produtor Rodrigo Pereira, pela oportunidade de fazer essa exibição.


No filme “Deserto Particular”, do cineasta Aly Muritiba, encontramos o amor expresso em múltiplas formas e possibilidades: pai-filho, filho-pai, neto-avó, avó-neto, amigo-amigo, amiga-amiga, irmão-irmã, irmã-irmão. O amor tem como desafio superar a opressão e alcançar a forma fluida como água que ultrapassa as barreiras de gênero e orientação sexual e alcança a plenitude da "Liberdade". Mas antes é submetido a uma longa jornada, posto a prova, e, "esticado", quase até arrebentar pelas estruturas conservadoras da religião e da violência bélica-militar. No filme, estas duas  instituições, de contenção da existência plena, são desnudas, e, revela-se a urgência do amor e da vida, como resistência a violência.


O roteiro e a filmagem são uma delícia e conduzem o espectador, até o final, vibrando entre o exercício do amor e o limite da violência, que paira o tempo todo, criando tensão e um desejo natural de que: amor se estabeleça na sua plenitude.


Um romance digital de dois amantes de regiões extremas do Brasil, dá início a travessia do personagem Daniel, que sai de Curitiba-PR, em busca de sua paixão Sara, na cidade de Sobradinho, na Bahia, de quase 3.000 quilômetros de diversos “Brasis” que se confrontam em todos os sentidos. Do urbanismo às estradas de terra, dos corpos rígidos à sinuosidade do gesto, da fala contida ao despojamento da piada, do rigor militar ao encontro com a identidade de gênero e orientação sexual.


A barragem guarda a antiga cidade de Sobradinho submersa pelas águas da represa, assim como, as personagens do filme guardam submersas em si mesmas as suas identidades e desejos. Estas múltiplas possibilidades de existir das personagens, não se manifestam plenamente em razão da forte estrutura social conservadora que as contém, domina, oprime e castra. A fotografia do filme demonstra a contenção das águas, da barragem de Sobradinho, por enormes estruturas de concreto e o poder do “homem” sobre a natureza e a sua forma de conter e colonizar. Num encontro profundo com suas origens e com sigo mesmos os personagens de “Deserto Particular”, se defrontam com todas as opressões expressas no que está posto diante dos seus olhos, que é a barragem de concreto, os seus desejos submersos e a força e desejo das águas, de correm livremente construindo seus caminhos.


Em diálogos curtos, simples e muito profundos revela-se a pulsão de vida se rebelando contra as formas como estas pessoas foram criadas, por dogmatismos religiosos e militares. A busca de si mesmo, da identidade, da liberdade e do amor são postas a prova e as personagens descobrem chaves importantes, que dão acesso às suas intimidades e nesse lindo processo, acontecem transformações que vão consagrando, pouco a pouco, os desejos de liberdade do espectador e expurgando a colonização e a opressão dos corpos e das mentes, dando-lhes o que elas clamam e merecem: a liberdade!